Fracassos Justificados
- cocatrevisan
- 14 de out. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de out. de 2023
Sou de uma geração sofrida politicamente e o que Bolsonaro representa não chega aos pés da ditadura brasileira.
Se o "milagre" brasileiro foi para poucos as frustrações e torturas para opositores foram muitas.
Época difícil na América Latina que às vezes ameaça dar seus pitacos com generais loucos e falsos "mitos". A bola da vez parece ser a Argentina com seu "mito"...
Voltamos aos anos 60, 70, onde músicos, escritores e artistas foram perseguidos e alguns assassinados como o cantor chileno Victor Jara.
Outro chileno, o escritor Roberto Bolaño também passou por momentos delicados e seu projeto literário pode ser analisado através de uma estética do fracasso.
Porém, um fracasso estranho que não signifique exatamente "fracasso". O conceito vem da doutora em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) Júlia Moreira Costa em seu livro "O Projeto Literário de Roberto Bolaño" que revela e insere sintomas de um fracasso sobre a incapacidade do sujeito perante um mundo comandado pelo dinheiro, e que apesar de resistências, sofre com discursos políticos e mídias malditas causando desencantos e abandonos.
Bolaño repercute tais abandonos em seus personagens como sugere a introdução do livro de Júlia, "O fracasso é muitas vezes estetizado para lidar com as perdas de seus personagens ou para encontrar para eles um lugar de pertencimento, ainda que seja o de derrota".
Eis um fracasso com sentido dúbio quando Bolaño reescreve a temática e resiste ao criticar as momentâneas condições políticas. Ora, como não denunciar regimes que não projetam inclusões sociais e exploram trabalhadores como escravos?
Taí o suposto fracasso.
Bolaño destrincha nossas impotências situando seus personagens na Era maldita de Pinochet como em "Nocturno de Chile" onde cita dados históricos, verídicos.
Personagens onde o fracasso é justificado pois insere de qualquer forma o derrotado visualizando para o infeliz "encontrar um lugar de pertencimento".
Talvez algo como a resiliência, conceito em moda atualmente.
Bolaño morreu em 2003 com 50 anos, ganhou vários prêmios, entre eles o prêmio Herralde(1998) por "Los Detectives Salvajes" e configura seu fracasso quando diz que "fracassar em uma sociedade que prega o sucesso como um projeto estritamente individualizante e capitalista de consumo de bens pode ser uma forma de manter a coerência com as utopias antes defendidas".
Além de seus personagens sofridos sempre rebateu escritores comerciais o que lhe custou represálias. Não se preocupou com as críticas, ele almejava romper conceitos como quem define quem são os vitoriosos ou os derrotados.
Basta pesquisar a política chilena comandada pelo Pentágono e famílias ricas norte-americanas. Após o golpe o governo chileno indenizou(?) as famílias Rockefeller e Rothschild em mais de 250 milhões de dólares.
Que famílias de sucesso não é mesmo?
Que sucessos de projetos...
E nossos sonhos se vão...
Sonhos não alcançados...
Aliás, nossos sonhos são estranhos, damos pulos na cama apavorados mas logo voltamos a dormir e do sono acordamos revigorado.
E a roda girando...olha a faca...
Enquanto Victor Jara queria cantar seu direito de viver, os insanos generais não reconheciam direitos humanos de opositores.
Porém, apesar de tudo e "deles", até mesmo os projetos literários considerados fracassos rebatem com resilências latinas fazendo o sonho de Bolívar se manter vivo...
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